Carta aos medíocres – sobre a inveja e o atraso

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Quer entender como se apresenta um medíocre? Como é fácil se deparar com um deles o tempo todo?

Certa vez estava eu, um sujeito esguio de porte físico pequeno que sou, skatista, praticante de um esporte que envolve mais equilíbrio e flexibilidade do que força, numa loja de suplementos do Mercado Central de BH conversando com um amigo e vizinho que trabalhava lá como vendedor, lá pelos idos de 1998. Loja bem conhecida e frequentada por esportistas de todos os tipos, desde maratonistas até lutadores de artes marciais e óbvio, marombeiros. Vende produtos para os mais diversos objetivos, gostos e bolsos. Nesse dia, me lembro bem, estávamos animados falando sobre skate e alguns eventos que aconteceriam na cidade quando parou na porta da loja, mas sem adentrar no recinto, um desses senhorzinhos de meia idade acompanhado de dois garotos. Ele deu uma olhada rápida, mas antes que pudéssemos interromper nossa conversa para que meu amigo lhe desse atenção fez meia volta, saindo da loja e indagando os garotos… “vocês viram que fortão o cara lá dentro comprando? Deu até medo!” Como o meu amigo estava do lado de dentro do balcão e só havia nós dois na loja além deles, estava claro que a provocação era pra mim. Ficamos olhando um para o outro num breve silêncio consciencioso, diante da perfeita mistura de ignorância com arrogância refletida na petulância daquele sujeito. A figura parecia não ter espelho em casa, um típico tiozinho do churrasco barriguinha de chopp, pra lá dos 40 anos dada a calva acentuada com aquele corte de cabelo típico parecendo o palhaço “papai papudo” amigo do Bozo. Baixinho feio que doía, dava pra ver que mandou fazer bainha na calça jeans porque não achava nas lojas o comprimento certo para aquelas perninhas de catatau, camisa de botões semiaberta estilo apontador de jogo do bicho ou porteiro de zona… enfim, tentem visualizar a figura.

Sem o menor abalo com a cena, eu e meu amigo já retornávamos ao papo quando o inesperado aconteceu, um dos garotos respondeu ao sujeito e na sua pequena sabedoria e proficiência o colocou no seu devido lugar… “ô pai, não é só bombado que toma isso não, todo mundo que pratica esportes. Meu tio toma aquele ali que tá na prateleira, é pra cansar menos no futebol, aguentar correr mais”… eles já estavam do lado de fora mas deu pra ver que o medíocre, preocupado em saber se tínhamos ouvido o corretivo que levou da criança, deu uma esticada de pescoço para conferir a nossa reação. É claro que já havíamos começado a dar risadas dele… hahahaha… instant karma bem diante do seus olhos e você fica igual a um lorde impassível e magnânimo sem aproveitar a vergonha de quem merece passá-la? Nem a pau Nicolau, rimos muito e alto! Ficasse apenas nisso e seria ótimo, mas deu pra ouvir que logo depois o cara agrediu o garoto, não deu pra ver, mas deu pra ouvir o menino reclamando… “ai aaaaii!”… e ensaiando um choro. Além de burro, covarde.

O medíocre é aquele indivíduo portador de profunda ignorância diante de algo sem a humildade de caráter para admitir que a tem, nem capacidade de saná-la, cujo o ego inflado pela arrogância prefere se perfazer diante de todos o impedindo admitir seus erros e falácias. É o tipo de pessoa capaz de qualquer remedo teatral de autoridade (“otoridade”) e de protagonizar os piores e mais vergonhosos chiliques já testemunhados para satisfazer suas inveja e burrice.

Toda pessoa medíocre, TODA, mesquinha, maneta de competência, sem brilho próprio e autoestima, chama de “arrogante” aqueles que não se submetem às suas pirraças, à sua pretensa “otoridade” ou influência. É a difamação padrão que fazem quando são contrariados e não podem domar o ímpeto daqueles que invejam.

“Pessoa insuportável, arrogante, se acha melhor que a gente.” – o medíocre padrão, se manifesta assim sempre que alguém mostra um erro seu. São como os petistas, para eles não foi Lula que cometeu crime é o juiz que não presta;

“Mas como é arrogante, né, não faz nada para os outros, quer tudo pra si” – o medíocre malandro, coloca peso na consciência alheia para arrumar um empregadinho;

“É um arrogante, nunca vi pegando peso, nunca vi varrendo um chão” – essa é uma pérola da mediocridade, é o medíocre pastor da humildade, desde que seja os outros, ele não. Pra esse a felicidade alheia incomoda;

“Louco de quem coloca uma pessoa arrogante como essa para tomar conta de negócio tão importante, alguém mais simples resolvia o problema sem querer dar lição na gente” – é o medíocre invejoso, pedante, que te observa há tempos e sabe pelas suas opiniões e pontos de vista que não tem a menor chance de um dia superar você. Se fizer uma prova do Enem tira zero.

Exemplos do quão fundo pode chegar o poço da mediocridade não faltam, listar todos aqui seria um massacre e com certeza estragaria a semana de qualquer um.

Em todos os lugares, em toda a família, no trabalho e na escola, sob o Sol ou a chuva, no frio ou no calor, sempre haverão medíocres dispostos a fazer o diabo para encontrar subalternos para suas vontades, carências caquéticas e desejos. Vivem à cata de aplausos, quase sempre pegando carona nos feitos, no talento e na capacidade de realização dos outros, quase nunca de si próprios. A pior coisa do medíocre é a sua língua de cobra. Não respeitam nenhum limite, nem perdem uma oportunidade de infernizar. Quanto mais segura for a pessoa alvo da sua mediocridade, mais eles se sentem desafiados. Medíocre é uma praga!

A maioria deles, os medíocres, passam uma vida inteira pulando de galho em galho na árvore do oportunismo e da malandragem, não teriam a menor vergonha ou resquício de culpa em pendurar um diploma na parede, falso, pode apostar, que lhes certificassem como pósgraduados na “faculdade da vida”. O medíocre sempre recorre ao clichê queimado e requentado da experiência acima da competência para exigir o posto de líder pela ordem de precedência, como se quilômetros a mais rodados fizessem um motor velho de Fusca vencer um motor novo de Ferrari numa pista de corridas. E depois de derrotados, o que usam como
justificativa? “É… mas o Fusca vai em qualquer lugar, a Ferrari não”. Não suporto isso! Mas até que eu concordo, medíocres tem desempenho melhor na lama mesmo.

Existe quem humildemente se declare medíocre em algo, pouca prática, pouco estudo, limitado e incapaz de grandes resultados a partir do que sabe ou já tentou produzir. Atitude louvável que denota autoconhecimento, respeito com as pessoas e seriedade na vida, o que em nada lhe impede de superar esses resultados medíocres admitindo que precisa se esforçar mais, simplesmente porque não possui as aptidões natas de outros visivelmente mais habilidosos ou treinados. Mas tem aquele que insiste “no direito” de transitar entre os brilhantes e mais dotados sem essa humildade, se dizendo em pé de igualdade, usando uma máscara de “otoridade” que adquiriu com sua atuação canastrona, rastejando como um réptil entre as falhas do sistema se esquivando da vigilância, entrando e saindo pelos buracos na cerca, enganando os olhos desatentos de quem deveria perceber sua presença, muito fácil inclusive, só observando seus cacoetes e métodos indefectíveis. Falsificam, metem, difamam, puxam o tapete, armam ciladas. Tentar trabalhar ou viver com medíocres parece aquele desenho animado “Corrida Maluca”, é ter que desviar de uma armação atrás da outra. Quem contrata medíocres para sua empresa não merece reclamar dos péssimos resultados que tem, menos ainda do ambiente de manicômio que eles criam onde se tornam a maioria.

Medíocre é uma praga! Medíocre, como se já não fosse ruim sozinho, ainda anda em bando, pois somente pela interproteção mafiosa alcançam seus objetivos. Um indica o outro, o outro indica o um. Competentes e talentosos se encontram, voam livremente e constroem coisas juntos. Medíocres formam quadrilhas, criam territórios onde cobram pedágio e fazem michê para sobreviver.

O medíocre é aquela pessoa que não sabe fazer, não quer fazer, não quer aprender a fazer, tem medo de quem sabe, quer que alguém faça pra ele, mas só depois que ele permitir. Se for contrariado ele parte do princípio que as pessoas mais talentosas são “privilegiadas” e isso é uma injustiça. Para o medíocre a única forma de resolver a “injustiça” de ser um frustrado na vida, invejoso e arrivista incorrigível é obrigar os mais capacitados e talentosos a lhe servirem, pois fazê-los descer ao seu nível ele não vai conseguir. O método que usam para isso é andarem em bando, difamar os outros chamando aqueles que não se submetem a eles de “arrogantes” e fazendo seu teatrinho, as vezes se passando por benfeitores, outra hora se passando por vítimas perseguidas e maltratadas. Medíocre enche o saco!

O medíocre vive num dilema, as pessoas realmente capazes e talentosas são uma ameaça à sua existência, num mundo onde os talentosos sejam livres para produzir e prosperar sem lhe pagar pedágio, sem necessitar da sua “bondade”, o medíocre simplesmente não teria vez, mas sem essas pessoas talentosas e inteligentes para resolverem seus problemas nada funcionaria. Então um medíocre chama mais um ou dois medíocres para ajudar na tarefa de “domar” a inteligência alheia aos seus serviços. Entram em pânico quando o contrário acontece, quando alguém bem mais capacitado assume uma posição acima deles e passa a fiscalizar seus atos.
Vivem tolhendo, intimidando e difamando quem eles invejam, ao mesmo tempo que não perdem a oportunidade de sabotar qualquer um acima deles que ameace seu “território”.

Somos humanos e temos todos nós, sem exceção, momentos de mediocridade. Meu maior momento de mediocridade foi quando, por ser um desatento portador de medíocre conhecimento sobre política, por exemplo, votei num verme maldito se passando por líder carismático, um populista chefe de quadrilha vagabundo que arruinou nosso país, fez um povo inteiro de palhaço e fez de mim um infeliz e torturado desempregado por muito tempo. Um crápula infeliz, um ladrão ordinário de marca maior. Pelo menos o veremos pagar pelos seus atos, hoje está na cadeia, deveria estar num presídio, mas já é meio caminho andado.

Tenho certeza que todos em algum momento já tiveram que se deparar com a mediocridade, até os medíocres competem entre si. Uma grande figura da história que admiro vivenciou como poucos o que significa enfrentar gente medíocre todos os dias, ele também foi um político, mas desses que deixam saudades em vez de dor e arrependimento, Winston Churchill, esse sim, entendia do riscado, colocou muito medíocre no seu devido lugar e também pagou o preço por isso. Meus caros, águia não voa em bando, se você de repente se vê cercado de estupidez, vê gente incapaz querendo ditar regras e ainda lhe oferecendo sua “proteção” para não ser atacado pela burrice e ignorância, tenha a certeza, medíocres resolveram apontar a metralhadora de merda deles para você! Peça licença e vá alçar seus voos longe desse inferno, pois onde está pretendem com certeza construir um viveiro ao seu redor e lhe cortar as asas.

… Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estreia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembleia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: “Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo uns trinta inimigos. O talento assusta”.
E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pôde dar ao pupilo que se iniciava numa carreira difícil.

Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa:

“Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma Ciência.”

(Trecho do brilhante artigo “O Medo Causado pela Inteligência”, José Alberto Gueiros, Jornal da Bahia, 1979)

“na mesma medida em que se depreciam os méritos de quem os tem, exaltam-se até o sétimo céu aqueles de quem não tem nenhum”. Afinal, “se as altas qualidades excitam a inveja e o despeito, a mediocridade e a incompetência infundem no observador uma reconfortante sensação de alívio, a secreta alegria de saber que o elogiado não é de maneira alguma melhor que ele” – (Olavo de Carvalho)

Eu não pago pedágio para medíocres, não adianta mandar o boleto.

Texto de: Fabrício Cesário

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