A liberdade de ensinar

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Ensino e Educação são coisas distintas. O primeiro cabe à escola, o segundo cabe à família.

No Brasil pede-se sempre por mais “Educação” que seja pública, gratuita e de qualidade. É elogioso, magnânimo e altruísta defender a “Educação”. Quer impressionar ou se exibir? Destrinche bem o tema em suas conversas, vale pontos extras nas rodinhas de bate papo e todo mundo aplaude. É comumente atribuído à precariedade de nossa Educação todos os males que o país enfrenta, como se uma pedra filosofal assim ela fosse, ou algo com poderes ilimitados, um catalisador universal para a solução de todos os problemas de um povo. Segundo os teóricos e cientistas sociais da moda (pretensos “especialistas” em quase tudo) a Educação seria a solução indiscutível para: a pobreza, a violência, os conflitos sociais, a falta de amor, a falta de árvores, falta de transporte público, a superlotação carcerária, os assassinatos, as mudanças climáticas, drogas, guerras… praticamente uma teoria de tudo, o Santo Graal, a cura.

Note bem esses especialistas, quando é terminado um debate sobre qualquer assunto e falta uma conclusão convincente, aí você pergunta a eles: mas e agora, qual a solução? Respondem de pronto: é Educação, claro! Não é preferível a aplicação de leis mais duras para criminosos reincidentes e crimes hediondos? Ou quem sabe mais liberdade econômica, desonerando o trabalhador, aumentando sua renda e diminuindo assim a pobreza, seja ele letrado ou não? Nesse ponto eles desconversam, pois segundo sua visão construtivista de mundo tudo se resolveria fluida e espontaneamente se todas as pessoas fossem equanimemente educadas. Mas convenhamos, qualquer pessoa sensata sabe que não é assim que funciona.

Segundo nossa “Constituição Cidadã” de 1988 a Educação é um direito do cidadão e dever do Estado (?!?!) Estranho uma constituição ter esse marcador tão enfático “cidadã”, mas tirar do cidadão o protagonismo sobre algo que dele emana, transferindo para a tutela absoluta de uma casta de ungidos no poder lá longe em Brasília, rodeada de serrado, bem distante dos estados, dos municípios e das pessoas, tomando suas decisões por amostragens, levantamentos e estatística. Sob qual prisma? Sob qual espectro? Esse é o velho modelo de Estado babá, interventor, dogmático e centralizador. É consenso hoje afirmar que nunca tivemos uma constituição brasileira tão centralizadora de poder nas mãos do Estado como a de 1988. O cidadão que aguarde pela sua fração e não se meta a fazer por conta própria. Cidadã pacas!

ENSINO escolar confere a um indivíduo a destreza no uso de suas aptidões intelectuais e cognitivas, nada muito além disso. Ensino se consolida na escola através de técnicas e métodos de estimulação continuada à aprendizagem, em disciplinas essenciais ao desenvolvimento das vocações e habilidades preeminentes em cada um. Acrescente-se a isso disciplina, autonomia, competitividade por resultados e direcionamento vocacional. Ao professor cabe a missão, estrita, de promover a união entre o conteúdo e os instrumentos de aprendizagem que fornecem os melhores resultados possíveis, tão somente. Atuar como agente motivador, energizando cada etapa da jornada escolar dos seus alunos desafiando suas capacidades e estimulando sua superação constante. Não cabe ao professor o papel de tutelar o aprendizado do aluno ao ponto de fazer escolhas por ele, impor temáticas, apresentar sua visão pessoal de mundo como única aceita, menos ainda estabelecer feudos ideológicos com plateia cativa.

EDUCAÇÃO, no sentido estrito da palavra, se aprende no ambiente doméstico e comunitário, onde o convívio molda a percepção e experiência. Educação transmitida de geração para geração alicerçada em valores morais, filosóficos, religiosos e hereditários. Expressada através da preservação de costumes, princípios, mensagens, ensinamentos e exemplos, que preenchem o indivíduo com um sentido de pertencimento a algo maior. Num mundo ideal todos teriam sua educação com base em uma família estruturada, estabelecida normalmente de acordo com a cultura e éticas de cada povo. Um núcleo seguro e estável, abrigo da mente e do respeito, formado de entes unidos por fortes laços de fraternidade. A escola predefine que valores como: respeito ao próximo, à vida, ao trabalho, às normas e regras de conduta, honestidade, a busca por resultados com esforço e dedicação, sejam incutidos pelo aprendizado em casa e na comunidade.

Já não bastassem as imperfeições humanas e as intempéries da vida que qualquer família está sujeita, atualmente soma-se ainda uma campanha de fundo ideológico e doutrinário com fins de atacar os moldes naturais que fizeram da família o ceio de amor, harmonia, segurança e desenvolvimento pessoal, para o qual ela indiscutivelmente existe. Há forças contrárias à existência da família tal como ela prevalece a milênios defendendo a tese insana de que ela se trata de um “obstáculo” à liberdade do indivíduo. Forças obscuras atacam a família pela via cultural afirmando que ela não passa de uma invenção humana, um capricho burguês. Fica cada vez mais claro, no entanto, dia após dia, qual o verdadeiro intento dos que militam por essas teses pós modernas antifamília. O indivíduo é leal à sua família em primeiro lugar, obediente aos seus pais, a família é um obstáculo evidente a qualquer projeto totalitário de poder pelo Estado.

O pior fato de todos a ser constatado é que a escola tem sido sorrateiramente instrumentalizada como um dos meios para realizar esse ataque. Gradativamente transformada numa trincheira ideológica onde ativistas, não professores, militavam sem sofrer contraponto (até agora) pela degradação contínua dos valores morais e gregários da nossa sociedade, representados pela família. O ensino tem sido subvertido em arma de doutrinação ideológica contra a preservação e prevalência da família como célula mater da sociedade. Para os reformadores sociais sonhando com uma nova ordem mundial é preciso desagregar os indivíduos, atomizá-los, separá-los, tirar-lhes a referências, deixar-lhes sem alternativas, vulneráveis, pois só assim poderão ser diretamente afetados e conduzidos sem uma forma de autoridade moral como a família para impedir.

Porém, a dinâmica humana divinamente não pára e as asas da liberdade sopram novos ventos sobre nós, renovando as esperanças e as energias necessárias para um novo tempo de resgate e elevação de valores primordiais que têm sido dilapidados geração após geração. Também para um despertar do verdadeiro papel que cabe ao cidadão na condução do modelos e meios de ensino do país! Tudo isso graças a novas mídias, ferramentas de aprendizado, tecnologias, redes sociais, conectividade instantânea, Internet e mobilidade. É fabuloso o mundo de oportunidades de ensino livre e empreendedor que se abrem atualmente.

Nosso modelo de ensino é monolítico, centralizado, engessado e ineficaz. O estado escolhe até a cor dos uniformes, que dirá o conteúdo! Após os consecutivos governos com forte viés socialista que ocuparam o poder no Brasil nas últimas décadas todo o sistema de ensino do país foi entregue a uma corrente de pensamento somente, moldado por princípios e teorias que não são oriundas da nossa formação como país e povo, com valores que não são os nossos. E um dos motivos para chegarmos a esse ponto é a falta crescente de liberdade econômica.

Nas últimas décadas o Brasil vem caindo vertiginosamente, ano após ano, nos principais índices que medem a liberdade econômica das nações. Consequentemente também caímos vergonhosamente nos índices mundiais que medem a qualidade do ensino. Caminhamos para as últimas posições nos dois quesitos. Das várias formas já apresentadas para consertar nosso sistema de ensino capenga e doutrinado, duas mais proeminentes se destacam pela sua fácil aplicação e rápidos resultados, Vouchers e Homeschooling.

Vouchers são um caminho rápido e eficaz para retirar do Estado o poder de gestão sobre o ensino e transferi-lo para quem realmente sabe fazê-lo, a própria sociedade e o livre mercado, juntos. Quem repete que “ensino não é mercadoria”, que “saúde não é mercadoria”, que “segurança não é mercadoria”… MENTE! O Estado não é capaz de administrar de forma razoável nada que toca, especialmente o Estado brasileiro corrupto e aparelhado. Nada nas mãos do Estado é gerido de forma eficaz. Tudo que ele assume opera de forma precária, insuficiente, incorreta ou simplesmente fali. Vouchers seriam uma solução sob medida para o cenário atual brasileiro, transferindo o ensino para a inciativa privada, gerando forte competição no setor e fomentando maior oferta e melhores preços, acelerando a expansão do acesso da população a ensino de maior qualidade. Os Vouchers , que são cartas de crédito fornecidas a famílias carentes, permitindo matricularem seus filhos na instituição que quiserem, injetariam milhões de R$ no mercado em um momento inicial, reaquecendo o setor, permitindo aos alunos entrantes no sistema desfrutarem de condições de ensino que jamais teriam na rede pública falida e sucateada do Estado. Fortalecendo as escolas, gerando caixa, novos investimentos e competidores. Todo o ciclo virtuoso do capitalismo entraria em ação.

Tocamos nesse instante em um ponto onde as correntes ideológicas de viés socialista literalmente “bugam”, os Vouchers e o livre mercado proporcionariam IGUALDADE de oportunidades a todas as classes, equiparando a qualidade de ensino para todos, conferindo mobilidade social para essas famílias de baixa renda, permitindo-lhes poder de escolha, independentemente da sua condição econômica e social. Uma revolução no ensino, literalmente. Um salto em todos os sentidos. O fim da narrativa pobre versus rico.

Não somente um salto na qualidade, mas também no alcance do ensino com o aumento da capilaridade das redes de escolas. As regiões carentes terão logicamente as maiores concentrações desse benefício, atraindo a rede privada para a região, fomentando o crescimento econômico local. Novas escolas numa localidade atraem outros investimentos, comércio, indústria, valoriza a região, melhora as condições de vida da população. Juntamente a essas escolas se proliferam pequenos prestadores de serviços, papelarias, lanchonetes, salões de corte e cabelo, lojas de roupas e toda uma infinidade de atividades que se beneficiam desse ciclo virtuoso do capitalismo.

Sobre a qualidade do ensino, caberá aos pais fiscalizarem e avaliá-la por método comparativo e pela reputação das escolas. No livre mercado essa missão é dos consumidores, ou seja, forçará um aumento de participação e conscientização das famílias interagindo mais com a escola, passando a acompanhar de perto o ensino dos filhos caso não queiram perder o benefício, uma vez que ele será mantido por critérios atrelados ao desempenho dos alunos e das instituições. Dessa forma a escola também passa a conhecer melhor a comunidade onde está inserida, detectando com maior precisão e rapidez suas demandas específicas e quais os meios mais eficazes de atendê-las. Aflora a partir daí o comunitarismo, em lugar do coletivismo capenga de outrora.

Para que toda essa transformação ocorra é preciso remover do caminho a principal barreira que impede o Brasil de avançar nessa direção, o MEC. Só haverá de fato livre competição por desempenho e resultados com liberdade curricular, removendo o intervencionismo estatal, a partir da qual cada instituição de ensino tenha autonomia para dialogar com a comunidade e elaborar sua grade curricular conforme aquilo que o mercado, a sociedade e seus consumidores demandam. Assim será possível respeitar as diferenças regionais, por exemplo, evitar o engessamento do conteúdo, impedindo que pela via do Estado correntes ideológicas dogmáticas e extremistas imponham disciplinas fora do nosso contexto cultural com estrangeirismos incongruentes que em nada acrescentam, ou pior, desagregam e degeneram nossa formação de povo e nação.

Com o fim do MEC, liberdade curricular, focando energias e recursos nas disciplinas elementares que realmente formam a matriz do ensino com caráter sólido e pragmático, muita coisa mudaria. Teríamos escolas formando indivíduos plenamente capacitados em suas vocações e campos de interesse, devidamente potencializados em suas melhores aptidões, em vez de milhares de generalistas indecisos, sabendo de tudo um pouco, mas que chegam até o ensino superior indefinidos sobre o que realmente lhes motiva e proporciona realização pessoal, fazendo tentativas sucessivas em campos diversos do conhecimento, buscando se encaixar em algum, consumindo tempo e energia em experimentações improdutivas, muitas vezes sem concluir sua formação e abreviando suas carreiras profissionais por escolhas mal feitas. O que mais se vê no Brasil hoje são jovens de 18 anos recém-saídos do nosso sistema de ensino falido fazendo “loteria” no vestibular, atirando para todos os lados. O Resultado é visível, altos índices de pessoas frustradas, que não receberam a devida orientação vocacional a tempo e momento para investirem desde cedo no seus talentos natos e paixões internas, agora se encontram em encruzilhadas difíceis.

O Homeschooling, modelo de ensino associado à educação em casa, vai muito além de uma simples solução para desafogar nossa rede de escolas públicas falidas, ele é um direito universal elementar de todo cidadão ensinar e educar seus filhos em casa se assim o quiser, que foi usurpado pelo contraditório Estado brasileiro, mais uma vez forçando o indivíduo a um projeto centralizador de caráter doutrinário.“É dever do Estado”, está proclamado na constituição “cidadã”, apesar disso remover do cidadão suas prerrogativas de individualmente decidir onde e como seus filhos devem ser ensinados.

O ensino em casa apresenta inúmeras vantagens econômicas e pedagógicas para as famílias que o adotam. A primeira e mais visível delas é a redução de custos, eliminando gastos de transporte, lanche, uniforme, compartilhamento do material escolar e do cronograma de atividades entre os estudantes. A segunda vantagem é a atenção individualiza a cada aluno, com mais foco no conteúdo, turmas menores onde os alunos se integram melhor durante as atividades, mantém melhor concentração, apresentando melhores resultados de aprendizagem que se refletem na maioria dos exames de avaliação. Outra vantagem visível é que professores mais dedicados aos seus alunos percebem mais rapidamente as deficiências dos mesmos, permitindo que sejam corrigidas o mais cedo possível.

Estatistas e defensores do ensino público procuram apontar o que seriam desvantagens no Homeschooling. Alegam que ele isola os estudantes do convívio social, atrasa o desenvolvimento do indivíduo no campo dos relacionamentos, afasta-o do contato com a diversidade de opiniões e visões de mundo. Fica até parecendo que o estudante vai para outro planeta chamado Homeschooling. Mas não é o que se reflete nos resultados apurados. Em todas as experiências de Homeschooling que acompanhei, a maioria delas com famílias estrangeiras de passagem pelo país, percebi justamente o contrário. Com um melhor aproveitamento nos estudos pelo aprendizado em casa, sobra mais tempo para praticar esportes, experiências culturais, atividades extracurriculares como um novo idioma e também relacionamentos a partir disso. Com mais foco nos estudos, mas entusiasmo pelo aprendizado e resultados mais consistentes, sobra mais tempo para o futebol, para aprender um ofício e até empreender seu próprio negócio.

Testemunhei o caso de um aluno estrangeiro meu, que era educado em casa na época que nos conhecemos e havia poucos meses que tinha chegado ao Brasil. Filho de um casal americano, a família ficaria no país por um período aproximado de dois anos. O garoto de apenas 14 anos estudava em casa durante o período da manhã com os próprios pais e professores particulares, praticava esportes durante a tarde e fazia curso de automação durante a noite numa escola técnica onde trabalhei. Mesmo falando português com dificuldade conseguia interagir muito bem com os colegas, não teve dificuldades em fazer amizades, não teve problemas em se adaptar ao método de ensino que usávamos nem ao conteúdo, bastava ele abrir a página que eu indicava e solicitar ao Google para traduzir. Dúvidas eram facilmente solucionadas pois meu inglês dá para o gasto e foi muito enriquecedor para mim tal experiência. O garoto foi a festinhas da turma, aprendeu com os colegas os costumes e diferenças da nossa terra, se dizia muito feliz e realizado pela oportunidade de ter vindo passar uma temporada conosco. Curioso, eu perguntei a ele o que mais gostava do Brasil até aquele momento, me respondeu que adorou Guaraná, também achou delicioso nossa culinária, as frutas na comida como abacaxi no churrasco, nunca havia comido uma coisa chamada açaí e que ficou enlouquecido com um suco leitoso e diferente de uma fruta chamada cupuaçu. Disse que o brasileiro é muito receptivo e foi muito bem acolhido por todos onde passou. Ao final de um ano e meio de curso sua equipe já havia construído uma impressora 3D e fazia miniaturas de personagens de cinema e quadrinhos para vender. Eu recomendei a ele experimentar a banana junto do arroz e feijão, ele aprovou.

Ensino não é bicho de sete cabeças, é direito de todos, não é dever só do Estado e cabe ao cidadão escolher e decidir seus rumos, não a burocratas encastelados em suas salas diante de estatísticas. Educação cabe à família, o Estado que não se meta, se o ser humano não é perfeito que dirá uma família inteira, mas não cabe a nenhum ideólogo afirmar que o Estado, que não sabe administrar sequer uma escola, seria um dia capaz de educar alguém melhor que ela.

Autor: Fabrício Wellington Cesário – Micro Empreendedor e Professor do Ensino Técnico

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